10 Princípios para Guiar Diplomatas na Resolução Internacional de Conflitos segundo Tony Blair | Guilherme Tavares | Negociação, Vendas e Mediação | Uberlândia
10 Princípios para Guiar Diplomatas na Resolução Internacional de Conflitos segundo Tony Blair

10 Princípios para Guiar Diplomatas na Resolução Internacional de Conflitos segundo Tony Blair

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Conheça algumas estratégias diplomáticas de negociação para resolver disputas de qualquer tipo, de acordo com famosos negociadores.

Em sua biografia, o ex-líder de renome mundial destaca lições do processo de paz na Irlanda do Norte. Considerado um dos negociadores mais famosos do mundo, Tony Blair apresenta 10 princípios para orientar os diplomatas na resolução de conflitos internacionais.

Após a sua eleição como primeiro-ministro da Grã-Bretanha em maio de 1997, Tony Blair fez das negociações de paz na Irlanda do Norte sua primeira prioridade política, segundo conta em seu livro A Journey: My Political Life (Knopf, 2010).

Durante séculos, a Irlanda do Norte foi dividida por um sangrento conflito entre Unionistas Protestantes Britânicos que procuravam manter a parte norte do Reino Unido, e Republicanos Irlandeses, em sua maioria católicos, que queriam que o Norte se unisse à República da Irlanda. Enquanto o sul da Irlanda avançava à frente do Norte economicamente e culturalmente, Blair chegou a ver o conflito, conhecido como Troubles, como “ridiculamente fora de moda”.

As conversações de paz realizadas no ano seguinte, culminaram em uma maratona de negociações de quatro dias em abril de 1998. Depois de uma oscilação entre acordo e impasse, os principais participantes do conflito assinaram o Acordo de “Good Friday” de Belfast (ou Acordo da Sexta-feira Santa de Belfast), que pediu pelo desmantelamento de armas paramilitares e a criação de um órgão de partilha de poder conhecido como o Executivo da Irlanda do Norte.

Mais nove anos de negociações cautelosas foram necessários antes que o poder Executivo estivesse em funcionamento. Blair, após o fim da exaustiva experiência de intermediar a paz na Irlanda do Norte, elaborou um conjunto de dez “princípios básicos de resolução”, explicitados no livro A Journey, que segundo ele podem geralmente ser aplicados a todos os conflitos.

1. Acordar sobre uma estrutura comum.

No coração dos problemas estava uma questão aparentemente irreconciliável, escreve Blair: se a Irlanda do Norte deveria permanecer no Reino Unido ou fazer parte do estado irlandês, unindo-se ao sul. Como havia um impasse à respeito desta questão, a tarefa dos dois lados era concordar com uma estrutura para a discussão baseada nos princípios acordados.

Quando as negociações de paz começaram, Blair promoveu um “princípio de consentimento” que manteria a Irlanda do Norte dentro do Reino Unido, a menos que a maioria dos cidadãos da Irlanda do Norte votasse pela unificação da Irlanda.

Os republicanos irlandeses concordariam em obedecer a esse princípio apenas em troca de compartilhamento de poder – isto é, eles colocariam suas armas em troca de um governo da Irlanda do Norte que representasse de maneira justa católicos e protestantes. O princípio ofereceu “um conceito de design válido” que todas as partes aceitaram como base para as difíceis negociações que se seguiram, de acordo com Blair.

Esse tipo de estrutura comum não serve apenas para orientar as partes em conflito, mas também efetivamente “aprisiona” as pessoas a se comportarem de maneira consistente, escreve Blair. Por exemplo, se as partes concordarem com um programa de policiamento baseado no tratamento igualitário, um lado não pode argumentar de forma persuasiva que um exército paramilitar também é necessário.

2. Controlar o conflito implacavelmente.

Blair atribui o sucesso duradouro do “Acordo da Sexta-Feira Santa” à aderência e dedicação total dos negociadores na implementação das muitas questões sob disputa. Uma resolução deve ser aderida e focada “continuamente. Inesgotavelmente. Implacavelmente. Dia a dia, dia após dia”, escreve Blair.

Como exemplo, tomemos o fato do acordo para desmantelar as armas paramilitares ter-se complicado durante a fase de implementação. Para garantir que as armas do Exército Republicano Irlandês (IRA) fossem de fato “inutilizadas”, proeminentes estadistas internacionais, incluindo Martti Ahtisaari, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, foram levados pelo interior da Irlanda para examinar os depósitos de armas.

Cada aspecto do Acordo da Sexta-feira Santa requeria e recebia esse tipo de foco persistente, de acordo com Blair.

Em contrapartida, ele argumenta que o processo de paz no Oriente Médio fracassou repetidamente porque “ninguém jamais dedicou tempo ou firmeza suficientes”.

3. Participar de assuntos menores.

Os mediadores de conflito se sentem frequentemente frustrados ao ouvir as partes em litígio reclamando de pequenas perdas, ignorando os seus maiores ganhos. Mas Blair não aconselha fazer tais julgamentos de valor.

Como questões aparentemente insignificantes geralmente são símbolos de questões maiores e críticas, elas merecem atenção total dos mediadores.

Durante as negociações da Irlanda do Norte, por exemplo, Blair diz que se familiarizou com a localização exata de cada torre de vigia que o exército britânico usava na fronteira do sul de Armagh comandada pelo IRA.

As torres de vigia, uma ferramenta de vigilância do exército britânico, eram uma fonte de contenção para os republicanos. Negociar a remoção das torres tinha que ocorrer “pouco a pouco”, segundo Blair. “Essas pequenas coisas podem ser negociadas”. O processo de troca de pequenas concessões aproxima as partes de um acordo, mas pode deixá-las “em estado de descontentamento mais ou menos permanente”.

Inevitavelmente, cada lado passa a acreditar que mudou mais. Terceiros enfrentam a tarefa de ajudar os negociadores a ver a floresta em vez das árvores, focar em interesses, não em posições, e encontrar acordos criativos ao olhar para cada detalhe em que poderiam haver concessões.

4. Seja criativo.

A engenhosidade é necessária “de maneira abundante” para resolver conflitos difíceis, escreve Blair. Para exemplificar, ele descreve como o líder do Partido Unionista Democrático (DUP), Ian Paisley, tentou adiar o prazo final de março de 2007 para reconstituir o Executivo da Irlanda do Norte, ação veemente criticada pelo líder do Partido Republicano Irlandês, Gerry Adams.

Com o acordo à beira do colapso, Jonathan Powell, chefe de gabinete de Blair, propôs que Paisley tivesse seu prazo adiado de dois meses, em troca de uma reunião face a face com Adams pela primeira vez. Ambos os lados aceitaram, e uma reunião histórica aconteceu – embora tinha havido intensas negociações sobre onde os dois lados se sentariam na sala de reuniões.

Ao gerar a oportunidade de uma reunião sem precedentes para resolver a discussão, Powell desviou a atenção da batalha contenciosa à respeito do atraso no prazo para a reconstituição do Executivo e abriu uma nova oportunidade para as partes encontrarem um acordo comum. Adicionar ideias e problemas novos à mesa é uma forma poderosa de criatividade.

5. Confie em terceiros.

Sem amparo de outros, é improvável que as partes em conflito resolvam suas diferenças, escreve Blair.

Terceiras-partes não apenas trazem criatividade para a negociação, mas também ajudam os negociadores a identificar questões mais amplas e pontos de virada que, de outra forma, poderiam ignorar.

Para ilustrar, Blair descreve como a implementação do Acordo da Sexta-Feira Santa estagnou em janeiro de 2005, depois que um homem chamado Robert McCartney foi esfaqueado até a morte por membros do IRA ao sair de um bar na Irlanda do Norte.

Em meio ao alvoroço que se seguiu, Blair fez um discurso chamando as partes interessadas para demonstrar que elas estavam prontas para avançar com “atos de conclusão”.

Em seguida, Blair estimulou os líderes republicanos a aceitarem que o IRA era uma barreira ao compartilhamento de poder que eles tanto desejavam. Ao darem um passo para trás em relação ao conflito (Go to The Balcony), os terceiros estão melhor equipados para identificar esses pontos de mudança e manter o processo em andamento.

6. Encare a resolução como uma jornada.

Como os dois lados em uma disputa prolongada têm dificuldade em enxergar a dor um do outro, a resolução de conflitos é mais bem vista como uma jornada do que como um evento, escreve Blair. Como resultado, os negociadores podem precisar incluir tempo suficiente para que as partes apresentem suas queixas sobre o passado.

Quando as negociações da Irlanda do Norte começaram, Blair descobriu que Martin McGuinness, um famoso negociador do Sinn Féin, precisava expressar a dor e a raiva de seu lado pelas injustiças percebidas no passado antes de se preparar para negociar questões substantivas.

Blair compara o processo de paz a “um carro que se afasta de um acidente”. Os passageiros, “abalados”, olham constantemente para os destroços no espelho retrovisor, enquanto se esforçam para ver a estrada à frente.

O mediador frequentemente deve persuadir cada lado de que os “possíveis deslizes” da outra parte refletem um trauma passado, e não a falta de boa fé.

7. Prepare-se para a disrupção.

Poucos meses depois da assinatura do Acordo da Sexta-feira Santa, a paz na Irlanda do Norte foi abalada pelo pior ataque terrorista na história dos Troubles. Uma bomba detonou na cidade mercantil de Omagh, matando 29 pessoas.

Todas as partes no conflito condenaram os ataques e prometeram que não permitiriam que seu acordo fosse sabotado.

O “Real IRA”, grupo responsável pelo atentado, nunca se recuperou. “O que poderia ter sido um retorno”, escreve Blair, “foi um ponto de virada”.

Em contraste, os ataques terroristas no Oriente Médio muitas vezes fazem com que os governos “reprimam”, diz Blair, alienando pacificadores e terroristas.

Em vez de ver a violência como uma busca desesperada pelo poder, os famosos negociadores interpretam isso como um sinal da futilidade de fazer a paz.

Diz Blair, mesmo “elementos perfeitamente respeitáveis e democráticos” provavelmente acusarão seus partidos de se venderem quando chegarem a um acordo. Negociadores sábios redobram seus esforços quando os linha-duras tentam sabotar uma negociação.

8. Empodere a liderança.

Ao longo de um longo conflito, os partidos inevitavelmente desenvolvem ideologias partidárias que colorem sua visão de tudo o que se segue, de acordo com Blair. Manter as posições firmemente estabelecidas durante as negociações de paz é o caminho mais fácil a seguir.

Mas, como o processo exige riscos políticos, os líderes precisam deixar suas ideologias estabelecidas.

Felizmente para Blair, a maioria dos principais participantes do conflito na Irlanda do Norte estava tão desesperada pela paz que eles estavam dispostos a ampliar seus pontos de vista. Como exemplo, o líder da DUP, Ian Paisley, tinha a reputação de ser o “spoiler” dos unionistas por sua resistência a uma acomodação ao longo dos anos.

Durante o processo de paz, no entanto, Paisley emergiu como principal negociador de seu partido e acabou trabalhando incansavelmente para fechar o negócio. Blair atribui a evolução de Paisley a dois fatores: uma sensação de mortalidade iminente após uma doença debilitante e a percepção de que o público queria que ele fizesse a paz.

Quando líderes fortes de todos os lados estão dispostos a arregaçar as mangas e cooperar, as chances de chegar a um acordo multiplicam-se exponencialmente.

9. Aproveite a mudança externa.

Se um conflito está profundamente arraigado, negociadores famosos podem aproveitar forças externas poderosas para abalar o status quo. O boom econômico e cultural que o sul da Irlanda começou a desfrutar na década de 1980 ofereceu um forte contraste com o conflito no norte. Antes, o sul era visto como atrasado; em meados da década de 1990, o norte é quem era.

Não mais um “símbolo unificador da identidade irlandesa”, a disputa tornou-se “uma lembrança dolorosa e inoportuna do passado da Irlanda”, escreve Blair. O desejo de alcançar seu vizinho do sul tornou-se um poderoso catalisador para o povo da Irlanda do Norte buscar a paz. Negociadores que estão procurando o fim de um conflito prolongado devem ser sábios ao evidenciar tais mudanças externas.

10. Nunca desista.

Além de “agarrar” o conflito, as partes devem se recusar a aceitar a derrota. Se um problema não puder ser resolvido no presente, insiste Blair, administre-o até que possa ser resolvido. “Um processo de paz nunca fica parado – vai para frente ou para trás”, escreve ele.

Em 8 de maio de 2007, nove anos depois do Acordo da Sexta-feira Santa, Blair ficou “um pouco estupefato”, pois pessoas que antes queriam se matar trocaram gentilezas e juraram o novo governo Executivo da Irlanda do Norte, preparando-se para trabalhar lado a lado para resolver problemas compartilhados. A notável conquista serve como modelo para qualquer um que se sinta preso em um conflito aparentemente insolúvel.

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Por Guilherme Tavares, traduzido e adaptado de

Author (Autor): PON STAFF

Article title (Título do Artigo): “Famous Negotiators: Tony Blair’s 10 Principles to Guide Diplomats in International Conflict Resolution”

Website title (Site): PON – Program on Negotiation at Harvard Law School

https://www.pon.harvard.edu/daily/international-negotiation-daily/international-negotiations-and-conflict-tony-blairs-10-principles-for-dispute-resolution-negotiations/

Publication date: March 07th, 2019

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